domingo, 23 de outubro de 2016

METÁFERA

Foto: I. Reis
A Bahia cabe em minha sede
escorre macia no meu sangue preto
de pelourinhos, escárnio e degredo.

A Bahia cabe em meu suor
Ácida, vivifica feridas na alma
Quando escorre, quando eu canto calado.

A Bahia cabe em minha voz
caçadora de símbolos e espaços
Violenta, abre intervalos nos tons.

A Bahia me cabe entre as vértebras
Dobra-me em personas de lata
Iansânica, oxossa-me, inexata.

A Bahia quase me completa
Olodúnica e aristotélica
Aqui sou, nem divindade, nem fera,
Irrepetível baiano: metáfera.


[2016]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

PROFUNDEZA DE MAR



o que diziam de profundeza de mar
em mim era altura rasa
turquesa azul
vertigem mundana de não ter fundo

e de respirar-se em mim o que voava
aerado encanto de garça nos ombros
vento que invadia a amplidão
vertigem de vela
aquele mundo de bocas salgadas

era amor
amor de ar, de jangada
brisa manhã, primeira mulher
carne de água, ventania
soprando no rosto
destino
roupa branca de varal

hão de mentir
que nostalgia é coisa de mar
do que corrói, não do que cai
bastava silêncio
areia fina ventosa
duna suave
moldando os ouvidos

era saudade menina
brincando de esconder
entre os segundos
arfava e morria depois
velório da lembrança, de dois.

e o que diziam de profundeza de mar
era em mim pura altura feminina.


[2016]

sábado, 13 de dezembro de 2014

***O CÉU DOS GATOS***

Do Blog Ciranda do Esquecimento, de Laurene Veras
http://lulinlulin.blogspot.com.br


Para Carol Araújo e Melinda


Há de haver um céu para os gatos
Nem que seja um vazio qualquer
Nesse mundo de vazios tamanhos
para onde eles vão quando viram nuvem.


Uma Pasárgada de pássaros barulhentos
onde é sempre recreio e férias,
E que não haja gente séria
onde tudo é brincadeira e travessura!

No céu dos gatos por certo não há relógios
Nem hora de dormir ou espreguiçar-se
Em lugar de minutos, duendes e elfos mitológicos
E - óbvio! - caixas de papelão à vontade.

Um lugar onde tudo é delicado
e onde nunca se sente solidão
onde há móveis pontudos
para que neles se rocem
e todas as almofadas de algodão
para que nelas se acomodem.

O céu dos gatos há de nos mostrar
que palavras corrompem
olhares, miados, ronronares, afagos
e que a melhor parte da ternura
é aquele silêncio simples de estar ao lado.

O céu, se céu houver,
Há de ser um lugar descomplicado,
de coisas simples
água, comida e sofás macios,
Que de mais ninguém carece nesta vida.

É imprescindível que tenha janelas
E horizontes infinitos
com árvores, borboletas e fitas penduradas
que é onde estão, quando sonham, os dormidos.

Que o céu dos gatos esteja assim sempre cheio
de ratos de pelúcia, guizos, chocalhos e brinquedos
Que de vazio já basta o que eles deixam,
Quando se vão da gente, no peito.


[2014]

terça-feira, 2 de julho de 2013

***COMO SUPERAR BLOQUEIOS E ESCREVER MAIS***

Como duas das coisas mais difíceis que já fiz na vida foram escrever teses de mestrado e doutorado (neste exato momento, ainda estou sofrendo com a última delas), reproduzo o excelente texto do Prof. Adrian Sgarbi contendo dicas para esse tempo difícil. Não, eu não o li em 3'17''...





Autor: Adrian Sgarbi. Tempo estimado de leitura: 3',17''

Perfeccionismo, procrastinação, raiva, cansaço. Esses são os estágios mais comuns que levam a bloqueios quando se está escrevendo uma dissertação ou uma tese. Embora não existam fórmulas mágicas, você pode evitar ou administrar o problema seguindo umas poucas dicas.

*   *   *

Para que tudo fique mais organizado, pode-se dizer que há coisas que "não ajudam"; coisas que "podem ajudar"; e coisas que "você definitivamente não deveria fazer" quando está escrevendo.


O QUE REALMENTE NÃO AJUDA

  • Comparar-se a alguém que escreve 15 páginas por dia. Cada um tem o seu ritmo e o momento na pesquisa. Ficar se comparando com outros que estão escrevendo não irá aumentar as páginas do seu trabalho.
  • Pensar que você é uma fraude. Isso pode parecer exagerado; não é. Quando eu estava no primeiro ano do doutorado fui com um amigo a uma festa. Como não me conheciam, perguntavam o que eu fazia. "– Bem, estou cursando o doutorado na USP"; respondia. Para mim, até aí, tudo bem. Mas em dado momento, ao responder a mesma pergunta, ouvi o seguinte: "– Nossa! Você deve ser realmente inteligente". No mesmo momento pensei: "Não, não sou! E provavelmente logo descobrirão que o que sou é uma grande fraude". Isso me atrapalhou um bom tempo.
  • Descontar em alguém a sua frustração. Afastar pessoas de que gostamos por contínua irritação e demonstrações de pouca paciência também é algo que ocorre com frequência. Nada pode ser mais nocivo do que ficar isolado por discussões sem sentido quando se está escrevendo.
  • Brigar com o orientador. Se há algo ruim é um ambiente pesado ou difícil com o seu orientador. Respire quando houver tensão e siga em frente. Há sempre o outro dia para retomar a conversa.


O QUE PODE AJUDAR

  • Encare a sua escrita como uma atividade. Queime calorias escrevendo. Você pode até não queimar muitas; mas algumas vai. Assim, você deve escrever; diariamente. Não espere um momento de inspiração para começar. Escreva.
  • Se a página 1 está complicada, inicie pela página 2. Pode parecer piada, mas na verdade é uma dica poderosa. Quando estiver escrevendo, tente começar pelo ponto central do capítulo. Depois, siga para as outras partes. Simples assim
  • Realize a tarefa mais difícil no primeiro momento do dia. Em geral, deixamos para depois o que nos causa desconforto. Não deixe para depois. Se você está deixando para escrever por último na lista de suas tarefas, mude isso. Deve ser a primeira coisa a fazer no dia
  • Escreva rápido; depois revise. Li em algum lugar que escrever é reescrever. Concordo. Quando escrevo, há palavras repetidas, erros de grafia, de concordância, confusão etc. Mas o que eu quero, ainda que de modo pouco claro, está lá.
  • Não se preocupe com a formatação. Esse é um erro comum. Entenda de uma vez por todas: formatar não é escrever. Enquanto você estiver escrevendo, não se preocupe com a formatação.
  • Corte as distrações. Escrever com avisos de todo tipo aparecendo em seu computador, atrapalha. Corte todos os avisos dos diversos aplicativos que você tiver. Inclusive de e-mail.
  • Divida as suas metas de escrita em tempos de 25 minutos com 3 minutos de descanso. Depois de 4 ciclos de 25 minutos, descanse de 5 a 10 minutos. Terminado o descanso, recomece todo o processo. Isso o ajudará a manter-se concentrado.
  • Planeje a sua semana. Procure prever tudo o que você necessita fazer na semana seguinte. Crie uma rotina. Estabeleça metas e revise o seu plano em um dia fixo. Reviso a minha semana seguinte toda sexta-feira. Durante a semana, adapte o que for necessário e prossiga. Não confunda planejamento com falta de flexibilidade; e tampouco flexibilidade com liberdade para não cumprir metas.
  • Ideias vêm de outras ideias. Portanto, mantenha todas as suas notas organizadas. Aliás, seja organizado com os materiais de sua dissertação ou tese. Perder tempo procurando coisas corta o seu ritmo.
  • Leia livros e artigos anotando. Guarde essas notas e coloque a informação completa do material usado e a página da qual a passagem tiver sido retirada. O mesmo para referências quando você parafrasear.
  • Carregue consigo um bloco de notas e deixe caneta e papel perto da cama. Ideias surgem a todo tempo: quando estamos dormindo, acordados etc. Não recomendo tablets perto da cama porque podem atrapalhar o sono.
  • Caso esteja difícil entender algum aspecto da sua dissertação ou tese, desenhe. Não há nenhum problema nisso. Desenhar é apenas uma outra forma de comunicação. E, ao menos para mim, uma imagem vale mais do que 1.000 palavras. "Ver" o que está acontecendo me ajuda a "enxergar" o problema; o que está claro e o que não está. Por isso uso mapas mentais.
  • Encontre um leitor de controle. Este pode ser inicialmente o seu orientador ou não. O que importa é receber impressões de alguém. Mas lembre-se de dizer que é um trabalho inicial e que provavelmente há muitos erros.
  • Deixe a sua mesa arrumada para o dia seguinte. Fazer isso, além de facilitar o começo de seu dia, o ajudará a se "desligar" de sua dissertação ou de sua tese. Você irá descansar melhor.
  • Leia algo fora de seu tema. Divirta-se com a leitura. Não coloque nela toda a carga de seu trabalho. Ainda que ler para escrever seja entretenimento para você, ler algo fora de seu trabalho imediato ajudará a diminuir tensões.


O QUE VOCÊ DEFINITIVAMENTE NÃO DEVERIA FAZER

  • Beber enquanto escreve. Digo, álcool. Eu trabalhei como o leitor de controle de um amigo na época de seu mestrado. Ele costumava beber whisky quando escrevia. Tropeçando nas palavras, telefonava para mim dizendo que havia escrito "as melhores páginas de sua vida". Ao ler, eu via que começava bem. Depois, eu não entendia absolutamente nada.
  • Começar a escrever com algum problema pessoal martelando na cabeça. Se você tem um problema, resolva-o. Não importa qual seja: ir ao banco, conversar com alguém, sei lá. E se o problema não tiver solução, tente encarar desse modo: você não pode fazer nada. Então, siga com o que você pode fazer. Ou seja, escreva.
  • Isolar-se. Procure sair com seus amigos e mantenha alguma atividade que o divirta. Isolar-se não faz bem. Escrever uma dissertação ou tese não é uma corrida de 100 metros; é uma maratona. A pior coisa que você pode fazer durante todo esse tempo é ficar sozinho.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

***Vladimir e Vinícius: leia antes de sair às ruas.***

De Charles Clyde Ebbets
Foto: Lunch atop a Skyscraper, atribuída a  Charles C. Ebbets

Ele se foi, morto pelas próprias mãos, há 83 anos. Foi talvez a minha maior influência poética de juventude, lida pela tradução genial de Augusto de Campos. Tive que me conter de emoção quando, pela primeira vez, ouvi a "Nuvem de Calças" em russo. Eu não entendia russo (continuo sem entender), mas aqueles sons estranhos me deram de presente uma aventura onírica de ouvir Maiakovski sozinho, em uma espécie de arena, recitando para uma multidão.

Hoje, vendo a tensão virtual dos preparativos de uma manifestação que tem balançado as estruturas conservadoras do Brasil e deixado pouca gente alheia a elas, lembrei-me do meu querido poeta russo. Chama-se "A propósito disto". Fala de uma fantasia na qual, um químico do futuro adquire o poder de trazer de volta os mortos. Consulta então um enorme livro, chamado "Toda a Terra", buscando decidir-se sobre quem ressuscitar. Vem então o grito de Vladimir:

"Para! não folheies mais. É a mim que deves ressuscitar.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Vejamos...Amo também os bichos -
vós os criais, em vossos parques, aí no futuro?
Pois então, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
E no entanto,
Por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
"Toma, querido, sem cerimônia, come!"

Imaginar o poeta oferecendo o próprio fígado (talvez já estragado pela vodka) a um cão faminto de rua foi uma imagem que durante muito tempo povoou meus pensamentos.


Mas não é de Maiakóvski que, embora já tendo falado, queria falar. Ele foi um pretexto. Na verdade, ao ver as convocações para os protestos de hoje, ao ver a mídia corrupta do Brasil virando a casaca e fingindo apoiar os movimentos, foi outro  poeta, um tal de Vinícius, que parecia gritar nas telas de computador do país inteiro: "Ressuscita-me! Para que eu vos recite, ainda um vez, o operário em construção." Com a palavra, o poeta-diplomata-capitão-do-mato:


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: - Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: - Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás. Lucas, cap. V, vs. 5-8. 

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.



sábado, 1 de junho de 2013

***HELIOS***





HELIOS

Isaac Reis

Entra, Helios.
Diz de tua luz.
Dança, doido,
Dá de toda dádiva
o dia, a vida dando volta.

Vem, gritando,
a joia da aurora,
a aura de ouro
do raio que rutila.

Conta, cintila
teus fosfenos de alegria
cega a retina do sereno
Que de ti, foge franzino,
E em deserto se esvazia.

Fere a fuligem fulva
da manhã que te anuncia
Fulge, fera infame,
No céu rasgado
pela ponta do teu dardo.

Firma o mundo disforme.
Conforma, retorce o orbe,
Alumia a treva esnobe
para que ao fim,
De exéquias
A noiva Nix te renove.


[2013]